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Ética do não agredir

Cada indivíduo tem sua percepção e conceito de ética. Este fator determina o convívio harmônico ou não com códigos, regras, preceitos morais e a facilidade em atender expectativas ou exigências de comportamento e conduta. Sua trajetória de encontros com palavras (ideias, teorias, pensamentos), pessoas e fatos produz o conjunto de valores, crenças e paradigmas que norteiam uma prática, que pode estar ou não afinada com o ambiente em que vive, gerando um constante refletir, equilibrar e equacionar dilemas éticos. Se estamos sujeitos ao determinismo do nosso passado, como agir positivamente aos novos e desafiantes dilemas éticos e morais do mundo moderno?

A mitologia conta que Zeus ao sobrepor seu pai Cronos gerou uma guerra entre feras e titãs. Figuras mitológicas e invencíveis, feras e titãs, digladiavam-se incessantemente. Desgastados e cansados de tantas batalhas, era comum a necessidade de encontrar um momento de tranquilidade. Os inimigos então pactuaram que no monte Ethos não seria permitido agressões. Mesmo os deuses precisam de paz.

A mitologia em qualquer cultura é um recurso simbólico para explicar comportamentos e fenômenos complexos, assim, os gregos passaram a chamar de atitude moral superior o comportamento nobre de considerar a paz como valor principal da vida civilizada, a opção digna de não ofender nem se deixar ofender, de não ferir levianamente os outros e a si mesmo, buscando sempre resolver com equilíbrio os acontecimentos do ambiente comum com princípios e valores adequados, com a melhor postura possível ao momento, de… Ética. Agindo como em Ethos.

A ética pertence ao grupo dos valores utópicos: liberdade, qualidade, justiça, verdade, ou seja, não conseguimos chegar a plenitude ou a perfeição. Temos que acreditar que tentamos chegar o mais próximo do que seria possível chegar, sem nunca nos satisfazermos, para continuar a evolução de nossos acordos e entendimentos, tendo sempre presente a ideia de que somos limitados ao tempo e às circunstâncias. A ética é uma eterna busca a adequada conduta.

Em um mundo de constante mudança, com ampla diversidade de culturas, crenças e expectativas, encontrar a ética nas relações se torna um esforço considerável e estressante. Trocamos de empresa, encontramos outras condutas, valores, religiões, costumes e acabamos por descobrir que a ética não é um ponto fixo no mapa, mas um norte convencionado, adequado ao momento e a necessidade de orientação de determinada comunidade. Às vezes este “norte” é apenas uma estrela que nos diz de forma sucinta: faça o bem ou evite o mal e estarás na direção certa.

Outro aspecto da ética é composto por um plano de coordenadas que nos dá uma localização mais precisa de qual a conduta: definida nas leis, regulamentos, regimentos e todo o ordenamento jurídico material e imaterial que rege uma sociedade politicamente organizada e sob o estado de direito.

Mesmo assim, ainda restam lacunas na orientação da conduta. Quando determinada organização percebe e entende que um conjunto de valores e princípios se tornou inseparável de sua forma de atuar, é necessário criar seu código de ética. Como um moderno “GPS”, a organização ajusta as coordenadas do ambiente externo com seu particular universo, deixando claro que é para lá que se deve ir, no que se deve acreditar e o que se espera de cada um.

Por mais que tenhamos todas as regras do que podemos ou não podemos, escritas e claras, há lugares obscuros, novas e desconhecidas relações que geram inéditas situações ou afloram outras que foram esquecidas. Nestas situações é preciso buscar os valores da organização e da sociedade, pedir orientação, refletir e ajustar-se, pois a vida pode tornar-se mais complexa do que supomos, frente ao cotidiano que nos obriga a outros comportamentos para resolver os dilemas éticos e seus inevitáveis conflitos.

Para estarmos capacitados e preparados para este contexto, capazes de encontrar a melhor conduta, a educação continuada é o alimento de nosso evoluir ético. No ensino formal ou em cursos livres, leituras, palestras, internet, enfim, nos variados recursos disponíveis é imprescindível buscar um aprender generoso, nobre, carregado de empatia para entender todos os entes e aspectos envolvidos numa situação. Eticamente, nunca estamos prontos, apenas melhores do que ontem, piores do que amanhã.

A única forma de medir com segurança a ética de uma pessoa é frente a um evento crítico. Falar que se é honesto e ético sem nunca ter passado fome ou miséria fica bem mais fácil. Quem nunca foi agredido não tem motivos para agredir, quem apanhou ou está apanhando precisa muito mais generosidade humana e ética para não revidar. Grande é o homem que mesmo contra todas as agressões consegue ser maior do que sua vingança.

Ao nos depararmos com um indivíduo que teve uma boa formação, boas escolas, bons livros, ideias inteligentes, bons pais, amigos, exemplos e fatos que, no conjunto, produziriam uma experiência edificante, por certo teríamos na nossa frente um cidadão bem formado, desenvolvido e ético. Mas não é isso que encontramos hoje nos jornais diários. Pessoas que receberam todas as condições de orgulhar nossa espécie, servir de liderança e exemplo para a sociedade, referência de uma ética maior, se envolvem em corrupção, tirania, maldade e tudo que é desagradável no ser humano.

Porém, subitamente nos deparamos com um humilde e anônimo indivíduo que nasceu numa comunidade precária, com uma família sem recursos, nunca frequentou boas escolas ou teve acesso a livros, permeou sua trajetória entre traições e abandonos, os fatos tristes vividos lhe dariam o direito ou a justificativa a qualquer ação de repúdio ou revolta. Se agredisse a sociedade seríamos capazes de entender o seu ódio, mas que escolheu ser um não-agressor, amigo generoso, pai responsável, honesto, trabalhador, íntegro e valoroso… um cidadão! Alguém que poderia agredir, mas decidiu não fazer, porque consegue ser maior do que suas mágoas e melhor do que a maioria de nós.

A cada manhã você escolhe que encontros quer ter, o homem ou a mulher que pretende ser, pois a ética é um exercício de vontade, acima de tudo. Você é quem determina como vai reagir a cada situação e se quer construir um mundo melhor para você, para a sociedade e para as próximas gerações, para a nossa espécie e todas as outras, se quer contribuir para uma sociedade que brinde seus integrantes com a paz da dignidade e o orgulho de pertencer. 

Nestes infinitos e difíceis encontros, onde nossa verdadeira essência é testada, descobrimos o mais valioso recurso do ser humano para realizar a grande obra do universo: o livre arbítrio, que nos dá a condição de escolher entre o bem e o mal, que, aliás, é uma das definições de ética. Qualquer atitude que traga na sua essência um ato de agressão não constitui base para uma sociedade melhor.

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