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A essência da inovação: impermanência e desapego

Nada dura, exceto a mudança (Heráclito, Grécia, 500 anos a.C.). Apesar de o conceito e a ideia da impermanência estarem na essência do budismo e da filosofia oriental, eles também permeiam o pensamento ocidental desde os primórdios da civilização grega. Mesmo assim, nossas vidas e nossas empresas estão amarradas ao vício de resistir a mudança e apegar-se cegamente ao estado normal das coisas. Digo normal, pois o estado natural das coisas é a impermanência.

Em períodos de calmaria e tranquilidade, o estado normal das coisas pode ser mantido e viável, pois é possível ter um destino mais conhecido, previsível e confortável. Mas há quanto tempo não vivemos estes períodos de tranquilidade? Se nada dura, exceto a mudança, só há um caminho: adaptar-se o mais rápido possível!

Porém, adaptar-se constante e rapidamente tem levado ao quadro de estresse que a sociedade vive no presente. Ao mudar, precisamos de esforço extra. Quando pensamos em descansar já está na hora de mudar novamente. Talvez a habilidade de adaptação, que levou o ser humano ao topo da cadeia evolutiva das espécies, esteja encontrando o limite. Ao menos para alguns. Mas, a reflexão é: seria diferente em outros tempos? O homem das cavernas não vivia sobre a ameaça de doenças, insetos, predadores, fome, intempéries e tantas outras adversidades e com menos recursos? De alguma forma nossos antepassados deram conta do recado e sobreviveram.

Acredito que a dificuldade, a grande dor do momento, seja a incapacidade do homem moderno de entender a impermanência e a necessidade do desapego. E isso vale para as empresas também.  Não estamos conseguindo inovar porque fomos moldados recentemente para uma vida sedentária e estável. E desta vida não abrimos mão!

Como pensar em inovação se há todo um esforço interno dentro das organizações e das pessoas por manter o status quo, as coisas do mesmo modo? Vale sempre a máxima: mudamos tudo… desde que nada mude para nós, ou mudem os outros para não precisarmos mudar. Mas os mesmos conceitos, formas de liderança e processos apresentaram respostas insuficientes para novos produtos e serviços. É claro que é difícil uma ruptura drástica, por exemplo, quando se tem uma planta industrial instalada e cara. É quase desesperador para o empresário pensar em mudar tudo depois de tanto esforço e investimento, mas não há outro caminho a não ser reconhecer o quadro, adaptar-se e evoluir. Há sempre uma parte que pode ser preservada na evolução, o DNA que transfere a essência das coisas. O grande Vitor Hugo já dizia que a inteligência está em saber qual parte do passado irá fazer parte do futuro.

Para boa parte dos empresários, executivos e profissionais isso já está claro, porém ainda assim a inovação é tímida e lenta. Acredito que isso está no modelo mental que criamos. Queremos manter os filhos em casa por toda a vida e eles não querem sair antes disso. Queremos que nosso clube, candidato, ideia vença sempre. Nos apegamos a conceitos e verdades que defendemos como absolutas (o que é certo e errado para nós), a direitos, a deveres e crenças que talvez não façam mais sentido ou sejam viáveis frente ao presente e ao futuro. E, finalmente, temos profundo apego a bens e padrões de vida, muitas vezes de luxo e até ostentação, que não produz ou levam a uma existência melhor.

Não há como admitir o novo em uma mente e atitude que permanecem apegadas ao velho. Simplesmente não há espaço para inovação ou passamos a sabotar uma nova situação pelo modelo mental que quer tudo manter. Desapego não significa abandono, mas de forma razoável e inteligente definirmos o que fará parte da bagagem da jornada para o futuro. Deixe para trás o que não vale a pena, reserve espaço para o que te seja útil e necessário no futuro.

Conclusão: o estado natural das coisas é a impermanência, desapegue daquilo que já cumpriu seu propósito, reinvente-se e a inovação virá como processo contínuo.

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