É hora de usar o ‘jeitinho brasileiro’, ou não?!

Somos mestres na arte da improvisação, mas até que ponto isso tem valor para as nossas empresas e para o mercado? Até que ponto o ‘jeitinho brasileiro’ nos conduz a agilizar os processos com o mínimo de recursos e muita criatividade, ou até que ponto ele nos conduz a falta de profissionalização? Afinal, uma solução improvisada que deveria ser momentânea muitas vezes acaba incorporada como definitiva.

Nem vou entrar no aspecto nefasto do processo, quando se obtêm vantagens ilegítimas de situações ou busca-se fomentar o mal que assola o nosso País – a corrupção em todas as esferas.

Vamos falar do que está dentro da legalidade, separando os processos com clareza e analisando também mais esta crise que está afetando a capacidade de investimento das empresas e exigindo uma velocidade de resposta ainda maior. Neste momento, somos espremidos ao máximo de todos os lados e paralelamente somos forçados a melhorar a performance. Haja resiliência!   

Nas últimas semanas, uma das polêmicas geradas neste delicado processo está relacionada a estrutura adequada para trabalhar em home-office. E vale destacar que neste caso o processo foi imposto por uma condição específica de quarentena, e não por necessidade econômica das empresas. O questionamento feito por profissionais da área foi o seguinte: ‘Para trabalhar em casa bastam um notebook e uma boa internet ou o processo demanda mais cuidados?’ O que conta mais nesse processo: a rapidez e a adaptabilidade, ou são necessários cuidados básicos com uma estrutura sem intervenções (os filhos que precisam de atenção, animais de estimação), excesso de ruído (desde a televisão no cômodo ao lado, ou a máquina de lavar), com asseio pessoal e um ambiente que possa trazer profissionalismo (estrutura física)?

Formal x informal

Este exemplo reforça o fato de que estamos partindo cada vez mais para informalidade nas relações de trabalho, o que de certo modo é excelente, já que a informação é muito mais relevante do que a manutenção de padrões pré-concebidos. Isso fica ainda mais claro quando assistimos aos noticiários.  

Saindo de questões materiais e entrando no cerne da questão, vejo que não podemos confundir as coisas, afinal existe uma questão que precisa ser respeitada em qualquer ambiente: a cultura. Por mais que o termo ‘jeitinho brasileiro’ seja condicionado ao ambiente macro, não podemos achar que isso é prerrogativa para fazer tudo de qualquer jeito.

Processos precisam ser mantidos, rotinas precisam ter começo, meio e fim, e informação e respostas precisam ser repassadas com qualidade e em tempo hábil. Não podemos confundir informalidade com comodismo, superficialidade, má gestão do tempo e liberdade sem responsabilidades. Existem valores muito fortes vinculados à parte boa deste processo, como ética e cumprimento de objetivos.

Flexibilidade x gambiarra

Mas, vamos sair um pouco desse aspecto tão debatido da questão para expandir a análise. Em geral, as empresas têm um conceito enraizado em sua estrutura que é potencializado em momentos de crise, quando analisamos a multidisciplinaridade dos profissionais, por exemplo. Em momentos de insuficiência de recursos, todos os profissionais precisam ser adaptáveis, precisam fazer de tudo um pouco, mesmo sem o devido conhecimento técnico e comportamental, precisam ser proativos, responsáveis, autônomos, autodidatas e incansáveis, muitas vezes recebendo até menos do que merecem.  

Existe uma máxima que diz: ‘Você colhe o que planta’. Está correto? No momento em que precisamos profissionalizar ainda mais para nos diferenciarmos, optamos por dar um ‘jeitinho’, achando que depois da crise tudo vai se adequar. Na realidade, estamos ‘matando’ aos poucos bons profissionais que não sabem dizer não e, consequentemente, a equipe e os resultados.

Veja bem, criatividade no processo de readaptação é essencial, mas tem limites. E o limite é a ‘gambiarra’ que desconstrói bons processos, boas equipes, bons profissionais, a ponto de assustar e enviar os clientes para o concorrente com uma carta de recomendações. Ter jogo de cintura é uma condição essencial para avançar em cenários instáveis e de muita insegurança, mas essa flexibilidade precisa ser vista com critério. O limite está na relação performance x investimento, e nos impactos internos (processos e equipe) e externos (para o cliente e o mercado).

O desafio das lideranças neste processo é garantir qualidade em todos os sentidos, avaliando todas as esferas. E temos que recriar processos para garantir isso. Criatividade é fundamental neste processo, mas não é um jogo de ‘vale-tudo’ e as circunstâncias não podem nos permitir adotar novos procedimentos sem controle ou observação de resultados. Sendo assim, cuidado! A necessidade ou o medo de dar um passo consistente pode inverter os resultados se não houver equilíbrio e análise criteriosa do processo. 

Autor do post: Uilker Benkendorf, consultor de gestão da Florença





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